fevereiro 06, 2013

Lisboa é Áurea, Lisboa é Prata, Lisboa é Ouro





Se algum dia se perguntarem porque é que em Lisboa cabe o mundo inteiro é só colocarem o pé na calçada e falar com a boca que em nenhum país do mundo se esculpe pedra como esta.
Eu vinha preparada. Na verdade fazia intenções de dançar como no salão no Rossio e jurei que não saía da praça porque estava perto das peixeiras. E as peixeiras tinham ouro, tinham lata e eram de Alfama. Mas ontem não cheguei a estar lá. Distraí-me nas entranhas de Lisboa que o resto do mundo acha banal. Na mala tinha a carta do presidente e o sol extraordinariamente não queimava os lábios. Eu vinha de blusa, batom, galochas e gabardina. Não sei porque razão mas Lisboa puxa-nos para as gabardines e sapatos cuidados. Fernando sabia-o na palma da mão. Encontrei-o por lá em todo o lado. Todo despido e esfarrapado. Tirei fotografias aos restos de ruas onde não batia o sol e andei até me doerem os dedos dos pés. Era essa a minha intenção. Chegar ao Largo do Carmo e descansar no banco, porque o Museu Arqueológico faz-nos isso. Faz-nos parar no meio da rua, fotografar lá atrás o Teatro da Trindade e depois com coração e um chocolate na boca descer a calçada e dar às escadinhas do Duque e perderem-se como eu durante meia hora, na livraria que mais parecia cenário de guerra. Ia jurar que era capaz de levar os livros todos para casa, mas lá estava um homem a trocar conversa com dois velhos que não me deixou. A conversa era irresistível. Ali fala-se de um homem que se matou e que levava uma vida inventada. Não haverá tanta gente por aí assim?
Mas continuei. Ontem andei com Camanés, Anas Moura e esses todos no ouvido. Vinha com a barriga a borbulhar porque o Grémio Literário estava ali e toda a gente parecia cega. Que raio! A porta trabalhada de madeira a ostentar um "G" bonito e ninguém passava na puta da rua. Eles devem andar aos pulos na cova.
Foi a partir daí que fui desistindo aos poucos da pressão e desacelerei o passo. A Bertrand ainda não tinha a Egoísta e já estava pronta para a desilusão. Oh mas a Brasileira não deixa. Lisboa não nos deixa ficar tristes dessa forma. É o elevador, as casas de vinho. As miúdos que tocam acordeão. Os homens estátua. As roupas velhas. As pessoas velhas. Tudo a ficar velho e a gente a deixar.
Fui ter com o velho à loja de Antiguidades quando ia a descer para o Cais do Sodré já ao fim da tarde. Aí os pés já estavam frios e a carteira estava fechada. Era por ali que andava a máquina de escrever que era capaz de roubar, mas no fim depois de engolir aquela coisa toda fiquei com o cartão do antiquário e prometi escrever à senhora. Hei-de eu trabalhar lá no verão e encho mais um bloco de notas. E vai começar com o livro de poesia do Júlio Dinis que comprei.
Hei-de eu levar Lisboa para casa no bolso e não chorar mais. Porque há beleza na dor lisboeta. Hei-de eu levar as peixeiras comigo para casa e escrever sobre elas. Ponho um colar de ouro ao pescoço e finjo que sou mulher.
Hei-de eu fazer isso tudo porque no comboio de volta se fazem bons planos e se provocam homens pelo telefone. Deixei lá Lisboa no mesmo sítio, mas trouxe essa certeza. Trouxe o sol que já não queima os lábios e traz atrevimento.
E ontem também me lembrei de ti. Deixei-te para o fim porque te ando a sonhar todas as noites e julgo que já não sou própria porque ainda te desejo. Quem não pode desejar essa voz e esses lábios depois de trazer Lisboa nos bolsos e fado nos ouvidos?
Trouxe Lisboa comigo por 2,50 € e a ti podia ficar contigo uma vida inteira.



1 comentário:

  1. Eu trago-te a ti e mim pela visão positiva que os meus olhos têm ganho. Magia vista pelos olhos mas que vai directa para o coração.

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